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Crítica | Um Lugar Silencioso (2018) - John Krasinski surpreende com ótima direção em seu primeiro filme de terror

Já diz o velho provérbio popular que, “o silêncio vale mais que mil palavras”, e devo concordar, uma vez que, em Um Lugar Silencioso, novo Thriller do diretor John Krasinski (The Office), eu diria que o silêncio é a chave para a sobrevivência. Devo dizer que o longa é uma excelente surpresa, nos empurrando em uma atmosfera digna de filmes de M. Night Shyamalan (Suas primeiras obras) inclusive, com cenas em um milharal remetendo ao filme Sinais, que despontou nos cinemas em 2002.


O filme tem início no que se chama In Medias Res, nos deixando no meio dos acontecimentos, onde uma grande invasão acometeu a terra, e criaturas assombrosas dizimou boa parte da população mundial, nesse cenário, somos apresentados ao casal de protagonistas, juntamente com seus filhos em um mercadinho pegando mantimentos, no dia 89 depois do ocorrido.
Krasinski nos conduz por um caminho de tensão que se inicia nas primeiras cenas evoluindo rapidamente até o seu ápice, com enquadramentos fechados focando na performance de cada personagem. Um fator interessante é que o diretor não se apressa em escancarar o que vem depois, ele abre espaço para conhecermos os personagens e nos importarmos com eles (O que normalmente não acontece nos filmes tradicionais do gênero) para só então mostrar o que realmente está acontecendo. 

Cada intérprete tem seu próprio arco narrativo, o que funciona muito bem, mesmo para um filme de curta duração. Emily Blunt (A Garota no Trem) está excepcional no papel de mãe protetora, ao mesmo tempo uma mulher fragilizada por uma situação marcante do seu passado que, afetou não apenas ela, mas toda a família, sendo o grande arco narrativo do filme. Sem contar que, precisa lidar com a gravidez em um mundo onde o mínimo de barulho pode levar à morte. Krasinski atua como o marido e pai, com um ar protetor, sempre alerta para proteger sua família do perigo latente, mesmo não tendo certeza até que ponto poderá fazer isso. A filha interpretada por Millicent Simmonds (Sem Fôlego) é a ligação dramática entre a família. Ela é surda na vida real, o que ajuda a compor sua personagem, uma garota forte, decidida, e que carrega além do medo das criaturas, um forte sentimento de culpa. O outro filho, representado por Noah Jupe (Extraordinário) é, ao contrário da irmã, um garoto medroso e inconstante, tentando fugir da realidade à sua frente a todo o momento.
O roteiro do filme é enxuto, não há espaço para muitos diálogos, nem jump scare desnecessários, o que não significa que eles não estejam lá de outra forma. O longa tem elementos de Babadook, O Bebê de Rosemary, A Bruxa, mesmo porque o próprio Krasinski disse em entrevista que, se inspirou em filmes que ele tanto assistiu. O design de som é impecável, cada barulhinho traz a sensação de pavor, e mesmo quando não há barulhos você se sente acuado, uma vez que, as criaturas possuem uma audição refinada, e até mesmo um simples passo pode ocasionar a aparição deles. A maneira como o diretor utiliza o recurso do som é fenomenal, justamente por escutarmos a sonoridade na perspectiva de cada protagonista, evocando um sentimento de emoção particular de cada um deles.
A belíssima fotografia fica a cargo da dinamarquesa Charlotte Bruus (A Garota no Trem), e lembra bastante o filme Rua Cloverfield, 10, com cores frias, puxando para o esverdeado, em um contraste entre luz e sombras que nos ambienta em um cenário familiar, mas ao mesmo tempo obscuro. A direção de fotografia também se preocupa em deixar pequenos detalhes em cena que, nos permite antecipar o que pode vir a acontecer em seguida.
Já que citei Rua Cloverfield 10, esse filme se encaixaria perfeitamente no universo de monstros criado por J.J Abrams em 2008, é instintivo, você associa rapidamente Um Lugar Silencioso ao contexto de Cloverfield, pelo simples fato do mundo ter sido invadido por criaturas bizarras desconhecidas, os ruídos que os monstros fazem se assemelham altamente aos de Cloverfield, entretanto, ele não é um filme Cloverfield (Não é Spoiler). Estou dizendo isso, porque ele foi mais fiel à franquia Clover do que o último filme, The Cloverfield Paradox. Visualmente o longa também não deixa a desejar, ainda que tenha um baixo orçamento, o design das criaturas são agradáveis do ponto de vista criativo (mas esteticamente eles são asquerosos, daria medo se eu visse aquilo na vida real). 
Um Lugar Silencioso é um presente agradável no que diz respeito ao terror/suspense, até aqui, pois conversa com os fãs do gênero, principalmente aqueles que estão cansados da mesma fórmula dos sustos fáceis, das informações passadas gratuitamente. Filmes como Um Lugar Silencioso, trazem ao espectador uma maneira, não diria inovadora, uma vez que, filmes do Hitchcock já fazia isso alguns anos antes, mas a nova safra de diretores está resgatando o terror mais aguçado, que não subestima o público, que nos aterroriza sem precisar mostrar demais. É um drama familiar, em que os monstros, representam mais do que o medo primitivo da morte, uma conversa entre o pai e o filho na cachoeira, um curto diálogo entre o casal, outro entre irmãos, revela claramente o peso que muitas vezes o silêncio e os gestos devem ter, muito mais que algumas palavras ditas, mas que não paramos para perceber porque estamos ocupados demais falando, e quase nunca ouvindo. Vale a pena dedicar um tempinho para essa experiência imersiva. John Krasinski provou que comediante também sabe fazer terror, e muito bem feito.
Nota 5/5

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