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Reprodução: IMDB |
E se pudéssemos vislumbrar o dia da nossa morte? Se por
um instante, essa imagem fixasse em nossa mente a ponto de nos confundir e nos
fazer apaixonar por esse relance tão trágico em seu final, nós nos
entregaríamos a esse retrato tão bem delineado coexistente com a vida?
Em La Jetée, a morte é personificada na paixão feroz, de
um homem por uma mulher (Hélène
Chatelain), uma mulher que nada mais é do que a figura de si mesmo capturada
durante sua infância. Uma imagem perturbadora cujo seu significado seria
descoberto por ele algum tempo mais tarde de uma forma visceral e cruel.
Logo nos primeiros minutos, o filme nos faz refletir acerca
das nossas memórias, até que ponto podemos confiar nelas? Memórias tão
fragmentadas, uma vez que o tempo passa, tornando as lembranças, anteriormente
claras, agora, turvas, podendo nos pregar peças. Não é difícil deixar se de
identificar com o homem do aeroporto, pois ele facilmente pode ser o espectador
com suas próprias memórias difusas.
A narrativa se passa no subterrâneo de uma França devastada
pela guerra em que, os prisioneiros que sobreviveram aos ataques são submetidos
a experimentos de viagem no tempo para tentar encontrar uma maneira de trazer
novamente a esperança para a humanidade. A transitoriedade do mensageiro
através do tempo passado e futuro ajudaria a restabelecer o presente, com o
envio de comida, remédio e fontes de energia.
A partir deste momento, embarcamos em uma viagem poética
por meio das imagens que o diretor e fotógrafo Chris Marker nos proporciona. Por exemplo, em uma das cenas onde o
homem (Davos Hanich) acorda no tempo
passado, ele tem a mulher ao seu lado, o percebemos imerso na felicidade, mesmo
que por alguns instantes, ele se sente afortunado e seguro naquela ocasião.
Em
outros momentos, a câmera nos olhos da mulher deitada na cama, o ângulo em que
seu rosto é captado, rapidamente mudando até se tornar não mais imagens
estáticas mas com movimentos, nos diz o quanto aquele homem tem a figura
daquela mulher muito forte e viva em sua mente, é apaixonante. Curioso notar
que ela quase sempre vestida com roupas escuras, uma possível alegoria de que
aquela doce mulher, a coisa mais linda e amável que ele tinha por perto, era
também o símbolo de obscuridade, morte, perda, algo que ele descobriria
adiante. O viajante, por sua vez, de branco, representando a inocência, vivendo
aquele período como se não houvesse ameaça, só a singeleza do momento.
Inclusive, em algumas das jornadas, o cenário está desfocado, como se o tempo
estivesse parado para os dois, e nada mais importasse ao redor.
A ideia de trazer fotografias intercalando com voz over
foram sensacionais, uma vez que e a montagem é impecável, com cortes precisos,
trazendo ritmo para a narrativa. A escolha de imagens em preto e branco é um
elemento estético assertivo, pois o diretor pôde brincar com a concepção da
dualidade de bem e mal, da manipulação entre luz e sombra, conduzindo a
história para um tom melancólico e sombrio.
A poesia de La Jetée reside justamente no trabalhar de conceitos
filosóficos e ficcionais, como a morte, as memórias, a viagem no tempo que é um
grande fascínio da humanidade. Acredito que qualquer ser humano em dado momento
de sua vida sentiu a necessidade de voltar ao passado para fazer escolhas
diferentes, para ver novamente uma pessoa amada que já morreu; mas o que mais
me chama a atenção é o momento em que o homem fez sua primeira viagem para o futuro,
onde a França está agora reconstruída, mas ele não quer viver ali, ele quer
voltar e morar no passado, morar na imagem idealizada que ele nem ao menos tem
certeza se é real, construída por ele ou meramente fruto dos experimentos que
aconteceram no subterrâneo de Chaillot.
Os enquadramentos dos planos geralmente fechados
somando-se à trilha que desde o início é impactante, uma ambiguidade sonora de
destruição e catarse, nos permite mergulhar de cabeça no enredo que foi um
grande marco da Nouvelle Vague e considerado um dos melhores curtas-metragens
de todos os tempos. Chris Marker foi feliz em nos presentear com uma obra de
extrema sensibilidade, refletindo a respeito de temas onde o amor, nostalgia, a
fixação por uma imagem de infância nada mais é do que a sensação de conforto e
ao mesmo tempo a fuga de um evento eminente que encerrará o nosso ciclo. A vida
e a morte caminham em uma linha tênue e nossa consciência cria cenários para
escaparmos deste dia imprevisível, porém inevitável, onde estaremos cara a cara
com a nossa inimiga mordaz.
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